ePub, eBook, se é digital, a GN1 faz

O ePub foi criado por um consórcio de empresas chamado IDPF - International Digital Publishing Forum, entre elas Sony, Adobe, Microsoft, grandes editoras norte-americanas e inglesas. Tem como um de seus princípios básicos a padronização e democratização de acesso aos e-books com facilidade e em diversos aparelhos.

O ePub através dos eReaders disponíveis no mercado (iPad, iPhone, Kobo, Kindle, etc.) possibilita o aumento do tamanho da fonte e o ajuste da dimensão das páginas de acordo com o dispositivo utilizado para leitura, adequando o e-book às necessidades do usuário.

Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial

22 de Junho de 2016

Nos últimos anos vem surgindo uma indústria mundial de livros eletrônicos (ebooks), com grande força no mercado no idioma inglês e notável força nos Estados Unidos. O recente informe Global eBook: a report on market trends and developments, 20161 fornece uma visão a nível global do desenvolvimento do mercado de ebooks que, após uma década de crescimento ininterrupto, diminuiu nos últimos três anos, ao menos por parte dos editores tradicionais, tanto nas vendas de livros físicos como eletrônicos, a favor de empresas globais como a Amazon ou a publicação não tradicional pelos próprios autores. (Nota: todas as cifras mencionadas neste post, a menos que se indique uma referência, provém do Global eBook). Devido à extensão do informe, este post será publicado em partes.

A publicação de ebooks é consequência natural da mudança de hábitos de bilhões de pessoas no planeta que têm conexão de Internet através de telefones móveis e tablets a qualquer momento em qualquer parte do mundo. De acordo com o informe que comentamos, a penetração global das mídias sociais supera em 31% o da população mundial. Embora a produção de livros (escrever, editar, publicar) parece ser um processo tradicional que resiste às mudanças, de uma maneira ou outra ele se transforma, seguindo as decisões espontâneas e massivas do público. A edição de livros é a segunda indústria mais importante entre as indústrias de conteúdo2 (a primeira é a televisão) gerando, a nível global, mais de 150 bilhões de dólares de faturamento por ano. Na transformação digital, os diferentes segmentos da indústria de conteúdos evoluem de maneira muito diferente.

Os mercados livreiros ao redor do mundo são modelados por diferentes fatores, desde o tamanho da população até o nível de desenvolvimento econômico. O principal mercado de consumo de ebooks hoje em dia são os Estados Unidos; o segundo, a China; e se seguem Alemanha, Japão, Reino Unido, e uma serie de países europeus. Na América Latina se encontram Brasil, México e Argentina nas posições 10, 18 e 26, respectivamente.

Do ponto de vista da produção de títulos, entretanto, a ordem varia, estando em primeiro lugar o Reino Unido com quase 3.000 novos títulos ao ano por milhões de habitantes, seguido pela Dinamarca, Eslovênia, e Espanha, em quarto lugar, com uma produção de mais de 1.600 novos títulos por milhão de habitantes.

Em resumo, se pode afirmar que o negócio do ebook a nível global se encontra concentrado em poucos mercados onde seis países dão conta de quase 60% do faturamento global, apesar de recentemente estarem emergindo companhias com papéis relevantes em seus mercados domésticos no Brasil, China, Índia e Rússia.

No universo da edição de livros se produziu no nível mais alto uma consolidação crescente entre os maiores atores, que está sendo confrontada pelas economias emergentes. Entre os 10 maiores grupos editoriais se formaram três diferentes setores, em ordem crescente de tamanho de mercado: STM (Science, Technology and Medicine), educação e literatura de consumo popular.

Os livros eletrônicos vêm se constituindo como um grupo à parte dos livros impressos. Começaram a se popularizar a partir de 2007 com o lançamento do leitor Kindle da Amazon, existindo três formatos digitais principais concorrentes (Mobi, ePub e PDF). A leitura digital se mudou dos dispositivos especiais para leitura através dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones, em toda a Ásia e de forma crescente nos países fora da América do Norte e Europa.

As tendências do mercado mostram um suave declive do impresso, e um crescimento lento no digital, de modo que as perdas do mercado impresso não foram compensadas pela ganância do mundo digital, ao menos isso é o que expressam as estatísticas dos grupos editoriais predominantes em língua inglesa (Big Five), a saber Penguin Random House, Hachette Livre, Harper Collins, Macmillan e Simon & Schuster. Não estão disponíveis dados suficientes de ebooks para mercados fora do âmbito anglo-saxão. A transição para a leitura digital não foi tão rápida como se imaginava no início e indubitavelmente levará outros 20 anos para se consolidar.

Os ebooks não atraem todos os segmentos de leitura de maneira similar. No mercado dos Estados Unidos e Reino Unido, a penetração maior se dá nos best-sellers dos gêneros de ficção (novelas, fantasia, erotismo) e nos livros publicados pelo próprio autor (self-published), estando a não-ficção muito atrás.

O mercado europeu veio se transformando através da consolidação dos grandes grupos editoriais. Porém, as maiores transformações estão sendo produzidas na área educativa. Por exemplo, a Amazon firmou acordos com o Ministério de Educação da França para incentivar os educadores a utilizar ferramentas e plataformas disponíveis na Amazon para a criação e disseminação de recursos educativos em acesso aberto. Na batalha dos Big Five com a Amazon por diversos argumentos (entre eles o modelo de preços únicos) eles perderam participação de mercado a favor da Amazon e além disso produziram aumento de seus ganhos no setor de “indies” (autores independentes) que se aproveitam da sua capacidade de mercado e vendas. Igualmente estão surgindo outras iniciativas que oferecem plataformas e consultoria como serviços a instituições e particulares para a edição digital de livros por conta própria dos interessados.

A publicação por conta própria (self-publishing) continua florescendo e entre 2014 e 2015 foram publicados quase 460 mil títulos novos, sendo 75% destes títulos publicados somente em três plataformas: Smashwords, CreateSpace, da Amazon, e Lulu.

Da mesma forma, enquanto o mercado europeu, em particular a produção de ebooks na França e Espanha, está diminuído, o mercado floresce nos gêneros de ficção e os títulos self-published. O mesmo cenário se presenta nos países emergentes do BRIC, onde o mercado se manifesta estável. Por exemplo, no caso do Brasil3, o mercado nos últimos 10 anos está “plano”, estando disponíveis algo como 50.000 títulos em português produzidos por editoras locais e entre 15 a 20 mil títulos self-published disponíveis nas livrarias de livros eletrônicos. Ainda que isso possa mudar, devido ao fato que em 2015 a Amazon abriu uma livraria online de livros e em dois anos chegou ao primeiro lugar em vendas. Os maiores vendedores de livros eletrônicos no Brasil são Amazon, Apple, Saraiva, Google e Kobo.

A publicação digital por conta própria (self-publishing) têm um grande potencial no Brasil, estando limitada fundamentalmente pela falta de serviços personalizados que forneçam a infraestrutura operacional. Os especialistas consideram que poderia ser criado um boom de crescimento de publicações por conta própria se existisse a infraestrutura adequada, uma vez que as grandes companhias ainda não tentaram fazer agregados de ebooks em português.

Notas

1. WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

2. As industrias de conteúdo incluem: Cinema; Videogames; Livros eletrônicos para o consumidor; Áudio e Música; Publicação de jornais; Publicação de revistas de ciência; Publicação de revistas para o consumidor; Publicações educativas; Publicidade pela Internet; Televisão; Vídeos de entretenimento para o lar; etc.

3. Os grupos comerciais de livros no Brasil, em ordem de importância são: Sextante, Companhia das Letras (PRH), Record, Intrínseca, Globo, Ediouro (Harpercollins), Rocco, LeYa Brasil, Planeta do Brasil e Novo Conceito. As principais editoras em educação superior são: Somos, Grupo Gen e Grupo A, que junto com a Elsevier formam o chamado Big Four brasileiro de educação superior.

Referência

WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

Links externos

CreateSpace – <http://www.createspace.com/>

Infinitas Learning – <http://www.infinitaslearning.com/>

Klopotek – <http://www.klopotek.com/>

Lulu – <http://www.lulu.com/>

Smashwords – <http://www.smashwords.com/>

Vital Source – <http://www.vitalsource.com/>

Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial

13 de Julho de 2016

O recente informe Global eBook: a report on market trends an developments, 20161, que começamos a analisar em um post anterior2, fornece uma visão a nível global do desenvolvimento do mercado de ebooks que, logo após uma década de crescimento ininterrupto, nos últimos três anos desacelerou, ao menos por parte dos editores tradicionais. (Nota: todas as cifras mencionadas neste post, a menos que se indique uma referência, provêm do Global eBook). Devido à extensão do informe, este post está sendo publicando em partes.

A introdução de modelos digitais na indústria do livro começou a modificar a cadeia de produção e exploração, onde o tradicional negócio, estável por longos períodos, mudou desde as coleções em bibliotecas e assinaturas de modelos “pay per download” e distribuição em acesso aberto. A mudança que está sendo produzida é análoga à da indústria da música, onde os suportes permanentes como os CDs estão desaparecendo e se impõem os modelos de streaming de música em portais de vídeo.

Outro elemento que se soma ao cenário é a publicação digital por conta própria (self-publishing) por parte dos chamados “indies” (autores independentes). Estes novos atores no mercado têm um grande potencial, especialmente nos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), mas não dispõem ainda de infraestrutura suficiente. A publicação por conta própria está florescendo e entre 2014 e 2015 foram publicados quase 460 mil novos títulos, sendo 75% destes publicados apenas por três serviços online de software: Smashwords, CreateSpace da Amazon e Lulu.

Diferentemente dos países desenvolvidos, nos países da Ásia, especialmente China e Índia, os dispositivos leitores mais importantes são os telefones móveis e, de forma muito marginal, os tablets e leitores de ebook, como Kindle. Esta independização do PC como instrumento leitor faz ingressar novos agentes externos ao mundo editorial, cujo interesse está centrado nas tecnologias de comunicação.

No caso da Índia, devido ao importante esforço do governo em prol da alfabetização, mais de 60% dos livros impressos são livros destinados à educação. Como consequência, a educação superior na Índia, por mais de uma década, vem adotando modelos digitais de publicação, em particular periódicos eletrônicos na área STM (Science, Technology and Medicine), que se originam em grande parte fora da Índia e são produzidos pelos principais grupos editoriais do mundo em STM, embora nas Ciências Sociais e Humanidades exista uma modesta lista de periódicos publicados por Sage Índia. Por outro lado, os principais distribuidores na Índia – Balani Infotech e o Grupo Asia Pacific Limited – distribuem uma ampla variedade de conteúdos eletrônicos (ebooks, PDF, audiobooks, periódicos, literatura clássica, etc.) produzidos por mais de 200.000 editoras ao redor do mundo. Além disso, também o India’s National Library and Information Services Infrastructure for Scholarly Content (NLIST) da Information and Library Network (INFLIBNET) fornece às universidades e colleges da Índia acesso previamente pago a mais de 80.000 ebooks e milhares de periódicos eletrônicos, onde mais de 90% das fontes eletrônicas estão radicadas nos Estados Unidos.

Merece destaque também o fato de que a publicação em acesso aberto está ganhando terreno na Índia no setor STM e nas Ciências Sociais, em um mercado calculado atualmente em mais de 40 bilhões de dólares. Da mesma forma que na Europa e EUA, muitos autores na Índia estão incursionando nos serviços de self-publishing, usando os serviços de Amazon com custos muito baixos.

Pois bem, observando o panorama global é natural que surjam perguntas sobre quais são os componentes principais e as discussões que estão dando forma aos mercados de ebooks.

O mercado livreiro, tradicionalmente, era um negócio de pequenas e médias empresas que tomavam suas próprias decisões de mercado, inclusive aquelas que faziam parte, em forma descentralizada, de corporações maiores. A chegada do mercado global e a introdução de atores globais, em particular no mercado do ebook, é uma mudança importante neste cenário.

Do ponto de vista do consumidor, os ebooks se acrescentam, como mais uma oferta, aos conteúdos e formatos digitais, sem muita diferença entre ver filmes, ouvir música, jogar videogames e conversar nas redes sociais. Portanto, é previsível que neste novo ecossistema todos os tipos de conteúdos serão vistos nas telas que os consumidores preferirem e que possam apresentar qualquer tipo de meios, sem importar se os conteúdos são produzidos por editores tradicionais, por “indies”, ou qualquer outro tipo de obras produzidas e distribuídas por todo tipo de criadores. Os livros serão um ingrediente a mais no menu. Isso incluirá os conteúdos publicados profissionalmente ou por piratas.

Até o momento, os atores relevantes a nível mundial são em pequeno número, com destaque para Amazon e Apple. Hoje em dia, a agenda digital global e a transformação da comunicação por telefonia móvel está sendo impulsionada pelos “quatro cavaleiros” formados por Amazon, Google, Apple e Facebook.

No que se refere aos livros, a Amazon, que começou como uma loja online de venda de livros, se desenvolveu, criando toda uma cadeia de valor como um sub mercado de publicação global incluindo os serviços de edição aos autores (indies), uma praça de mercado para terceiros, uma plataforma para leitura, uma comunidade de leitores com mais de 20 milhões de assinantes e um novo dispositivo Kindle Unlimited por assinatura mensal e acesso a mais de um milhão de títulos. A indústria de auto publicação está fortemente dominada pela Amazon através de toda a Europa. Em particular, na área de materiais educativos, a Amazon começou a realizar convênios em grande escala com autoridades de vários países, não apenas nos EUA, seu país de origem, porém em competição com editoras locais na Índia e China, em um mercado estimado em bilhões de dólares. Tudo isso gerou uma série de disputas políticas na Europa impulsionadas pelas grandes editoras tradicionais.

Considerando as iniciativas dos outros dois dos “quatro cavaleiros”, podemos dizer que:

  • Apple segue dominando o mercado de tablets com mais de 40% do mercado, seguida pela Samsung, com 25% e Amazon com uma cifra modesta menor que 5%, ainda que isso esteja começando a variar pela preferência do público por tablets multifuncionais, levando o sistema Android a superar a Apple.
  • Referente ao Google, sua iniciativa de busca de texto completo em livros digitalizados, chamada inicialmente Google Book Search, Google Print e Google Library Project, em conjunto chamadas agora de Google Books, dispunham em 2015 de mais de 25 milhões de livros.

Outros atores menores, mas também importantes são Rakuten Kobo (Canadá) que informa possuir mais de 26 milhões de assinantes em 90 países e um inventário de mais de 4,7 milhões de títulos e Tolino (Alemanha) com uma ampla base de sócios na Europa.

A alta complexidade dos mercados de ebooks, nos quais surgiram várias batalhas legais na Europa e EUA, compreende as diferentes estratégias contraditórias (e antigas) da atribuição de preços, a pirataria e as facilidades de auto publicação. Este cenário pode ser visto como oportunidade ou ameaça, segundo o lado em que se encontra do balcão. A consequência desta situação demonstra que se encontra em maturação um mercado diferente para os livros, onde duas estratégias parceiras que começam a se destacar: as plataformas de assinatura e a auto publicação de livros (incluindo as opções de Creative Commons).

Este será o conteúdo da terceira e última parte desta série de posts.

Notas

1. WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

2. SPINAK, E.Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed25 June 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

Referências

WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 25 June 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

Links Externos

Amazon Publishing – <http://www.advicesbooks.com/index.php/what-is-amazon-publishing/>

CreateSpace – <https://www.createspace.com/>

Goodreads – <https://www.goodreads.com/>

Google Books – <https://books.google.com/>

Kindle Unlimited – <https://www.amazon.com/gp/feature.html?docId=1002872331>

Lulu – <https://www.lulu.com/>

Rakuten Kobo – <https://store.kobobooks.com/es-es>

Smashwords: your ebook, your way – <http://www.smashwords.com/>

Tolino – <http://mytolino.de/>

Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte III – Final: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial

27 de Julho de 2016

O recente informe Global eBook: a report on market trends and developments, 20161, que começamos a analisar em posts anteriores2,3, fornece uma visão a nível global do desenvolvimento do mercado de ebooks que, logo após uma década de crescimento ininterrupto, nos últimos três anos desacelerou, ao menos por parte das editoras tradicionais. (Nota: todas as cifras mencionadas neste post, a menos que se indique uma referência, provêm do Global eBook). Devido à extensão do informe, este post foi publicando em três partes.

A reestruturação do mercado de livros em sua alta complexidade e, portanto, o preço dos ebooks, é determinado pelas estratégias contraditórias (e antigas) na Europa para atribuição de preços, a pirataria, e as batalhas legais nos EUA. Na Europa, os preços de venda são estabelecidos pelos publishers, motivo pelo qual os preços foram mantidos artificialmente estáveis. Nos países que por lei têm preços fixos, os revendedores têm uma margem de apenas 5% para variar acima ou abaixo, e este grau de rigidez varia entre os países europeus. Os preços dos ebooks estão desnecessariamente engessados por um esquema estabelecido pelo mundo editorial da “era do papel”.

Os ebooks estão cada vez menos integrados a este modelo editorial. Na medida em que a Amazon consegue uma maior participação de mercado com os serviços de auto publicação, com diferentes segmentos que enfocam nichos diferentes de audiências, vão sendo modeladas estratégias de preços diferentes que saem por diferentes canais de venda. No momento, apenas a Amazon tem um guarda-chuva que abarca o amplo espectro de livros cobrindo toda a gama de preços começando com valores tão baixos como 3 a 5 euros, o que os torna de consumo massivo. Na Alemanha, mais da metade dos ebooks vendidos pelas principais livrarias online custam menos de 5 euros e este é o segmento onde se encontra a maioria dos livros auto publicados, que são selecionados pela Amazon, Bookwire e outras cadeias livreiras que os usam para promoções especiais como “seleção do mês”.

Até que ponto a pirataria afeta os ebooks não se sabe; a dimensão que abarca o mercado pirata não é conhecida (ou não é revelada). A pirataria pode ser entendida como um mercado paralelo que amadurece junto com todo o mercado de consumo digital. Uma análise dos cinco principais sites piratas europeus destaca que é um negócio em franco desenvolvimento. Estes sites não entregam os livros a partir de seus servidores, mas oferecem links a servidores externos onde os livros estão alojados; os sites piratas apenas funcionam como “páginas amarelas”. O tráfico nestes sites é massivo, alguns deles registram mais de um milhão de visitas mensais, e frequentemente estão entre os 100 a 400 sites mais visitados em seus próprios países. Cada mercado principal de ebooks, para cada idioma, é objetivo de alguns poucos piratas focados nas audiências culturais principais, desde a ficção até os documentos acadêmicos e pesquisa em ciência, tecnologia e medicina (Science, Technology and Medicine, STM), como o conhecido exemplo do site SciHub.

A publicação por conta própria (self-publishing)

Como vimos na parte II2 desta série de posts, nos últimos anos desenvolveu-se um mercado editorial paralelo que oferece toda a cadeia de valor, incluindo os serviços de edição, aos autores que querem publicar seus próprios livros por conta própria (self-publishing); estes autores são denominados indies (independent authors).

Em 2013, nos EUA os indies conseguiram publicar mais best-sellers que qualquer outra editora individual. O mercado total nos EUA para os livros auto publicados é estimado em aproximadamente 180 milhões de dólares, ou seja, 11% do valor total do mercado de ebooks naquele país, com um total de quase 459 mil títulos publicados neste ano (2013).

A principal plataforma de software para auto publicação – Smashword – foi usada para a edição de mais de 276.000 títulos por mais de 25.000 autores individuais, seguida pelos serviços da CreateSpace da Amazon com outros 200 mil títulos exclusivos para a loja Kindle. O mesmo cenário se repete no Reino Unido, onde 12% dos títulos produzidos neste ano foram auto publicados. Da mesma forma, na Alemanha, a participação da Amazon no mercado para ebooks é de 64%, cujos autores fazem o upload de seus próprios livros nas plataformas de venda da Amazon, seguidos pelas plataformas Kobo, Beam e Google.

Esta transformação e crescimento do mercado de auto publicação levou a considerar que a auto publicação pode chegar a se converter em “corrente principal” (mainstream), e a percepção dos publishers é que a motivação principal, no terreno da ficção, não é a ganância econômica dos autores, mas a promoção da autoestima. No meio deste debate, nem Amazon nem Barnes & Noble revelam informações detalhada de vendas. Obviamente, este é um segmento da indústria livreira que em poucos anos está mudando dramaticamente os modelos de comportamento e as cadeias de valor do setor.

Plataformas de assinatura

Em 2014 emergem com força os modelos de assinatura para leitores oferecendo “tarifas planas”, o que acende outra controvérsia nos debates da publicação para consumo digital.

Destacam-se neste movimento o surgimento de novas empresas com capital de risco (start ups) ou a transformação de antigas editoras como a editorial Scribd, que se reconstruiu como uma plataforma que fornece mais de 80 milhões de leituras ao mês dando acesso a mais de um milhão de títulos de 900 editoras, atuando como um hub global que cobre vários países. Esta empresa fornece acesso e leitura de até 4 livros por US$8,99 ao mês. O debate se acelera com o lançamento da Kindle Unlimited pela Amazon, começando nos EUA, e imediatamente se estendendo ao Reino Unido e Alemanha.

Esta mudança de modelo dos consumidores em geral, passando da venda de produtos à assinatura por uso, foi analisada na revista The Economist em 20134, onde se lê:

“No Século 21, as mudanças nos hábitos de consumo estão mudando o panorama global de negócios, talvez para sempre. Existe uma mudança expressiva em curso na forma pela qual, como consumidores e empresas, estamos buscando o consumo de bens e serviços. Em particular, agora valorizamos a conveniência e a flexibilidade das assinaturas de serviços em lugar de comprar os produtos diretamente”.

Como será afetado o mercado de ebooks, entretanto, é muito cedo para saber, pois a pergunta crucial que ninguém ainda pode responder é se o volume de assinaturas de ebooks terminará redesenhando a indústria editorial ou não, e em que medida. Quantos autores e editoras se submeterão a esta tendência, quão rapidamente o farão e, finalmente, se os leitores pagarão por este tipo de serviço, são perguntas para as quais ninguém ainda sabe a resposta.

As páginas amarelas

O informe que comentamos conclui com um extenso apêndice, onde em 30 páginas registram-se centenas de instituições de alcance regional ou global que se dedicam à: (a) edição de ebooks; (b) organizações que agregam conteúdos de terceiros, fazem a distribuição e fornecem serviços de suporte à publicação eletrônica; (c) organizações educativas que publicam livros eletrônicos (muitas delas em acesso aberto); e (d) serviços de plataforma de leitura online por assinatura.

Publicações eletrônicas de organizações educativas

A publicação digital de livros educativos tem figurado entre os programas dos Ministérios de Educação de muitos governos nos países emergentes, com resultados distintos. Por um lado, manifestam-se resistências do mercado editorial à difusão gratuita de conteúdos, porém também há resistência das corporações de docentes e professores em utilizá-los em sala de aula. Não obstante as resistências, também é possível mostrar êxitos, onde tomaremos como exemplos apenas dois países entre muitos: Brasil e Índia.

No Brasil, entre várias iniciativas, mencionamos o programa Nuvem de Livros, no qual 270 editoras oferecem mais de 15.000 livros a quase 3 milhões de assinantes; o programa CAPES para a educação superior; o Minha Biblioteca para informação em STM usado por 250 universidades; e também o SciELO Livros.

Na Índia, motivados por um plano intensivo de alfabetização, onde foram investidos centenas de milhares de dólares, foi adotada desde muito cedo a publicação eletrônica para a educação em todos os níveis, começando pela escola primária. Sessenta por cento de tudo o que se publica na Índia (papel e digital) é de conteúdo educativo. Entretanto, existem problemas de acesso aos materiais digitais, porque, ainda que a presença da telefonia celular seja muito grande, a maioria dos conteúdos publicados está em inglês, que não é o idioma das classes sociais menos favorecidas. Ademais, o National Council of Educational Resources and Training oferece para download em PDF online a totalidade dos livros de textos necessários para o ensino primário e médio. Outro elemento a destacar na Índia é que a publicação sob licença Creative Commons está ganhando espaço em todas as áreas do conhecimento.

Minhas reflexões

Os ebooks ganharam seu espaço em vários segmentos de mercado, onde o gênero ficção é o mais bem-sucedido, a publicação científica e educativa em menor grau, porém com grande potencial, e alguns gêneros resistiram melhor no mundo do papel impresso. As editoras grandes e médias estão dando especial ênfase aos novos formatos de leitura em telas e, muito recentemente, um boom do mercado surgiu por parte dos autores que publicam seus próprios livros, que requerem plataformas online para edição, publicação e distribuição.

Os desenvolvimentos mais novos estão sendo impulsionados pelos grandes provedores que ocupam toda a cadeia de produção, como Amazon e a aliança Tolino na Europa. No mercado asiático, especialmente na China, a leitura em dispositivos não apenas se converteu em um passatempo popular, especialmente entre os mais jovens, como os hábitos de leitura estão mudando para os telefones móveis (smarphones). É aqui que tem início a competição entre as companhias com interesses nas tecnologias de comunicações, que nunca estiveram no mercado editorial. A batalha é travada não apenas na área dos conteúdos, mas também nos dispositivos, onde estão integrados, além da leitura, os videogames, os filmes e as redes sociais.

O novo cenário que enfrentam as editoras tradicionais está pleno de perigos e oportunidades, desde a criação de novos formatos até a reformulação dos canais de distribuição. O investimento necessário para satisfazer os desafios apresenta riscos aos atores de menor porte, investimento que as grandes corporações podem administrar com maior facilidade. Abrem-se oportunidades a novos empreendimentos (start-ups) e, mesmo assim, aos gigantes da Internet que não têm fundamental interesse na criação de conteúdos, mas que querem tomar porções maiores das comunicações de seus usuários e a interação social. Em consequência, não deveria ser uma surpresa o fato que as editoras levantem barreiras e debatam, no campo da legislação, as leis de competência e as leis de diretos autorais, para defender o que foi seu campo de ação desde sempre.

Este novo cenário apresenta duas oportunidades importantes para o âmbito educativo e as iniciativas pessoais ou sem fins lucrativos. O desenvolvimento de plataformas online que integram toda a cadeia de produção editorial de livros permitirá que indivíduos ou instituições possam produzir livros e outros documentos a custo muito baixo, e sem necessidade de ter complexas infraestruturas de hardware/software.

Da mesma maneira que anos atrás a criação de websites ou blogs era uma tarefa reservada aos especialistas em tecnologias de informação, consultores internacionais e treinamento avançado nas universidades, hoje em dia qualquer pessoa pode construir e manter sua linha do tempo no Facebook ou seu blog usando o WordPress ou o Joomla, de forma intuitiva, sem custos e com mínimo know-how. Consequentemente, poderia ser possível que os interessados publiquem e distribuam seus livros sem a intervenção dos publishers.

As instituições educativas têm, da mesma forma, a oportunidade de criar todo o material de apoio educativo como textos online sob licenças Creative Commons, sem a dependência dos grandes publishers. Também é uma oportunidade para o surgimento de pequenas e médias empresas (PME) para oferecer serviços de consultoria e capacitação no uso das plataformas integradas para a edição de ebooks e materiais relacionados.

Notas

1. WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

2. SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

3. SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/07/13/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-ii-a-publicacao-do-livro-impresso-e-digital-no-contexto-mundial/

4. TZUO, T. New rules of the road for the Subscription Economy. The Economist. 2013. [viewed 15 July 2016] Available from: http://www.economistgroup.com/marketingunbound/consumers/zuora-rules-of-the-road-for-the-subscription-econome/

Referências

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte I: A publicação – impressa e digital – no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/06/22/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-i-a-publicacao-impressa-e-digital-no-contexto-mundial/

SPINAK, E. Livros eletrônicos – mercado global e tendências – Parte II: A publicação do livro impresso e digital no contexto mundial. SciELO em Perspectiva. [viewed 16 July 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/07/13/livros-eletronicos-mercado-global-e-tendencias-parte-ii-a-publicacao-do-livro-impresso-e-digital-no-contexto-mundial/

TZUO, T. New rules of the road for the Subscription Economy. The Economist. 2013. [viewed 15 July 2016] Available from: http://www.economistgroup.com/marketingunbound/consumers/zuora-rules-of-the-road-for-the-subscription-econome/

WISCHENBART, R., et al. Global eBook: a report on market trends an developments. Rüdiger Wischenbart Content and Consulting (RWCC). 2016. Available from: http://www.global-ebook.com/

Links externos

CAPES – <http://www.capes.gov.br/>

CreateSpace – <http://www.createspace.com/>

Minha Biblioteca – <http://www.minhabiblioteca.com.br/>

Nuvem de Livros – <http://www.nuvemdelivros.com.br/>

SciELO Books – <http://books.scielo.org/>

SciHub – <http://sci-hub.cc/>

Scribd – <http://es.scribd.com/>

Smashwords: your ebook, your way – <http://www.smashwords.com/>

Sobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.